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Notícias do CFF

Dia Mundial da Voz: medicamentos podem ocasionar danos nas cordas vocais

Data: 16/04/2021

O Dia Mundial da Voz, 16 de abril, surgiu a partir da realização da Semana Nacional da Voz, no Brasil, criada por médicos otorrinolaringologistas, inicialmente, com o intuito de se prevenir o câncer de laringe. A primeira campanha da Semana Nacional da Voz ocorreu em 1999 e, em 2003, ganhou destaque internacional, tendo sido reconhecida pela Federação Internacional das Sociedades de Otorrinolaringologia, Academia Americana de Otorrinolaringologia e pela Sociedade Europeia de Otorrinolaringologia. Este reconhecimento internacional da importância da campanha brasileira sobre a voz culminou com a criação do Dia Mundial da Voz. Em 2021, a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e o Sistema Conselhos de Fonoaudiologia promovem, também, a 16ª Campanha Amigos da Voz, com o tema “Sua Voz Diz Muito Sobre Você”.

Mas, você sabia que os medicamentos também podem afetar a sua saúde vocal? Pensando nesta questão, o Conselho Federal de Farmácia fez uma entrevista com a farmacêutica da Coordenação Técnica e Científica do mesmo órgão, Alessandra Russo, e a fonoaudióloga Luisa Catoira, para tratar deste assunto e da temática da prevenção e promoção da saúde vocal. Bruno Gouveia, vocalista da banda Biquini Cavadão, e paciente da fonoaudióloga Luisa Catoira, também nos deu um depoimento sobre as graves consequências que teve ao passar a se automedicar com corticoides de uso sistêmico, pois o ritmo frenético e a correria dos shows exige muito da voz, seu instrumento de trabalho, não sendo possível o repouso vocal e o uso de estratégias não farmacológicas quando lhe ocorria algum problema de saúde que afetasse a voz.

A fonoaudióloga Luisa Catoira trabalha com voz profissional de atores de dublagem, de musicais, de TV, de cinema e teatro, com cantores, locutores e professores. Luisa relata que, em sua prática clínica, identifica pacientes que se automedicam, atitude que a profissional contraindica veementemente a todos eles. As principais classes farmacológicas utilizadas nesta automedicação são os corticosteroides e os betabloqueadores

“Como fonoaudióloga, não sugiro uso de medicamento algum para voz. Peço para que meus pacientes, ao sentirem quaisquer sintomas, procurem o médico, no caso, o mais normal é procurarem o otorrinolaringologista. Mesmo assim, vejo muita gente se desesperar antes de um show, de uma apresentação importante, com alguma rouquidão, e fazer uso de corticoides. Outra coisa que usam muito é medicamento para desacelerar o coração.”

Quando as pessoas ficam ansiosas, uma reação normal do organismo é a aceleração dos batimentos cardíacos por descarga de adrenalina. Os medicamentos betabloqueadores diminuem a frequência desses batimentos. Quando o coração acelera, a respiração se desorganiza, o corpo treme, os lábios tremem, as pregas vocais tremem. Toda esta alteração fisiológica produzida pela ansiedade altera a qualidade da emissão da voz. Este fato é uma situação conhecida como ansiedade de performance e existem estudos publicados sobre o assunto. Uma pesquisa realizada por Nascimento (2013) com 224 bacharelandos em música, revelou que 17,27% dos entrevistados já haviam feito uso ou utilizavam medicamentos betabloqueadores. Mas não se deve utilizar betabloqueadores para esta questão, muito menos por automedicação. A pesquisadora alerta que o uso contínuo desses medicamentos pode ocasionar diminuição da frequência cardíaca, hipotensão postural, confusão mental, tontura, náuseas, broncoespasmo em pacientes com asma brônquica ou história de queixas asmáticas, distúrbios visuais e fadiga intensa, impotência sexual, broncoconstrição, etc. Há medidas não farmacológicas para o controle de ansiedade, como exercícios de respiração, psicoterapia, entre outras estratégias.

As chamadas “cordas vocais” são pregas mucosas flexíveis, que possuem músculo e ligamento. As vibrações ocasionadas pela passagem do ar por entre as pregas vocais, nomenclatura correta, produzem a fonação. As pregas vocais estão anatomicamente localizadas na laringe, que é uma estrutura composta por músculo e cartilagem e possui função específica de produzir fonação.

A importância da voz é incomensurável, pois ela é a responsável por nossa expressão, comunicação, socialização, individualidade, além de ser instrumento de trabalho essencial para a maioria das pessoas.

As infecções respiratórias virais estão entre as doenças humanas mais comuns e chegam a representar 50% de todas as doenças agudas existentes. Entre elas, podemos destacar a gripe e o resfriado. As complicações mais comuns advindas de um resfriado podem ser a laringite aguda, sinusite, e no caso de gripe, desde rinofaringite, laringite aguda, até pneumonia. Uma das características do resfriado, uma doença de etiologia viral, é a abundante rinorreia, com consequente congestão nasal e enchimento dos seios paranasais, onde a secreção não drenada pode infeccionar e ocasionar a sinusite.

A laringite, congestão nasal, sinusite, afetam a emissão da voz, os seios paranasais cheios de secreção interferem na ressonância vocal, a laringite aguda ocasiona dor, prejudicando a fonação. Porém, o resfriado e a gripe são doenças autolimitadas e, sem maiores complicações, não têm indicação de uso de corticosteroides, antibióticos ou quaisquer outros tipos de medicamentos para o seu tratamento. Em caso de piora do quadro clínico, com febre, dor, rouquidão, dificuldade respiratória, procure o médico, não se automedique.

Temos também, a partir de março de 2020, uma pandemia, a Covid-19, ocasionada pelo coronavírus denominado SARS-CoV-2. Esta doença, que pode ocasionar síndrome respiratória aguda grave, é de fácil contágio e rápida disseminação. Entre seus sinais e sintomas iniciais podem ocorrer tosse, dor de garganta, entre outros.

Os medicamentos podem ocasionar danos às pregas vocais por diferentes mecanismos, como, por exemplo, o depósito do medicamento na mucosa orofaríngea (administração de corticosteroides por dispositivos inalatórios), ressecamento da mucosa e diminuição da lubrificação das pregas vocais, inflamação, edema, hematomas ou necroses e paralisia das pregas vocais. A edição de 2018 da revista francesa Prescrire International nos traz um importante artigo onde são relacionados os medicamentos que podem induzir danos diretos ou indiretos às pregas vocais.

Os corticosteroides inalatórios, utilizados no tratamento da asma, aparecem em primeiro lugar na matéria da revista Prescrire International, pois são considerados os que mais ocasionam danos às pregas vocais, incluindo disfonia e rouquidão. Os corticosteroides inalatórios são depositados na orofaringe durante a administração, principalmente aqueles em forma farmacêutica pó, e podem induzir inflamação, micoses, edema e até miopatia. A farmacêutica Alessandra Russo alerta sobre a correta administração do medicamento e a imprescindível higiene da orofaringe após a administração desse tipo de medicamento, com o objetivo de evitar ou minimizar estes problemas. O medicamento inalado tem seu local de ação no pulmão, e não na boca, na laringe ou na faringe. A administração incorreta também pode levar à ineficácia do tratamento e ao desnecessário aumento das doses. Importante também ressaltar que existe diferença entre os dispositivos inalatórios para uso adulto e infantil. O Conselho Federal de Farmácia tem uma série de publicações para suporte ao farmacêutico quanto ao uso de dispositivos inalatórios. Clique aqui.

Os medicamentos anticolinérgicos também afetam as pregas vocais por tornarem a saliva mais espessa e ocasionarem o ressecamento da mucosa da laringe. Os broncodilatadores administrados por meio de dispositivos inalatórios, uso tópico, para o tratamento da asma, também podem ocasionar o ressecamento da mucosa. O tratamento sistêmico com anticolinérgicos diminui a produção de saliva. A ação anticolinérgica algumas vezes é utilizada terapeuticamente, como no caso do uso de atropina, escopolamina, medicamentos para o tratamento da doença de Parkinson, e aqueles utilizados para o tratamento da dor ou da incontinência urinária, além dos anti-histamínicos utilizados em medicamentos para tratar sinais e sintomas de alergia.

As glândulas salivares são enervadas pelo sistema nervoso simpático. A estimulação do sistema nervoso simpático leva a uma diminuição da produção de saliva, o que diminui a lubrificação e hidratação das pregas vocais, interferindo na fonação. Há relato de caso de duas crianças que sofreram mudança de amplitude vocal, tais como rouquidão e vibrações após uma primeira dose de metilfenidato (Ritalina®). Os sinais e sintomas desapareceram gradualmente após três horas da administração do medicamento, mas reapareciam a cada administração de nova dose. A pseudoefedrina, um simpaticomimético muito utilizado em formulações de medicamentos para congestão nasal, também pode ocasionar mudanças na voz.

De modo geral, a farmacêutica Alessandra Russo explica o seguinte em relação aos possíveis danos que podem ser ocasionados às pregas vocais por medicamentos:

“Muitos medicamentos que utilizamos podem ocasionar danos às pregas vocais. Alguns medicamentos tornam a saliva mais viscosa, outros diminuem a produção de saliva, o que interfere na lubrificação e hidratação das pregas vocais. Um problema drástico ocorre com mulheres que utilizam esteroides anabolizantes para aumento de massa muscular. O uso destes medicamentos ocasiona a virilização da voz feminina, com mudança do seu timbre, quadro que não se resolve nem com a interrupção do uso do medicamento. Diuréticos como furosemida e espironolactona alteram a voz por meio do ressecamento da mucosa das pregas vocais. Benzodiazepínicos, utilizados para o tratamento da ansiedade, também podem ocasionar disfunção na voz por meio da alteração da função muscular e diminuição da produção de saliva. Medicamentos relaxantes musculares podem ter como reação adversa a diminuição da produção da saliva. O mesmo ocorre com alguns antidepressivos. Em relação aos corticosteroides sistêmicos, não há indicação de uso para dor de garganta em estádio inicial, muitas vezes é sintoma de um resfriado, gripe e até de Covid-19. Ao sentir qualquer desconforto na garganta, dor, pigarro, ressecamento, rouquidão, consulte um médico.”

A fonoaudióloga Luisa Catoira explica que:

“No caso de precisarem tomar remédios que afetam a voz de alguma forma, como antialérgicos que desidratam as pregas vocais, corticoides ou antibióticos, ou qualquer remédio que cause sonolência (o que causa um relaxamento do aparelho vocal também), sempre oriento que respeite seu corpo, se hidratando mais, fazendo "repouso vocal ". E se for possível, nem fazer uso profissionalmente da voz. Enfim... o bom uso da voz, ou seja, saber aquecer e desaquecer a voz, saber fazer exercícios de resistência vocal diariamente, saber o que faz bem, o que faz mal, faz toda a diferença na vida de um profissional da voz.”

A fonoaudióloga explica que repouso vocal é ficar sem usar a voz o máximo de tempo que puder, vibrando a língua a cada hora para ir drenando as pregas vocais.

O vocalista da banda Biquíni Cavadão, Bruno Gouveia, com 36 anos de carreira e, que antes da pandemia chegava a fazer de 2 a 4 shows aos finais de semana pelo país, fala sobre a automedicação com corticoides e que serve de grande alerta à toda a população, bem como para os jovens atores/cantores e demais profissionais da voz:

“É um ritmo muito intenso que exige uma condição de atleta da voz para realmente poder realizar todos os shows. Você não dorme, não come direito e se sacrifica muito nessa correria toda. Teve um momento na minha vida que isso foi intenso, e, por várias vezes, procurei um médico para rapidamente resolver o problema porque não dava pra ficar quieto com a minha voz por sete dias. Dois dias depois, já tinha um show ou uma gravação pra fazer. Eles naturalmente me recomendaram corticoides e vários outros medicamentos. Tudo bem por aí, sem problemas, até o momento que eu achei que já não precisava ir mais lá (no médico) para falar sobre nenhum problema e eu mesmo me automedicava.”

O resultado foi que o músico ficou dependente dos medicamentos para manter a voz plena. Com a orientação da fonoaudióloga conseguiu buscar soluções não farmacológicas para manter a saúde vocal. Diz Bruno:

“As pessoas não têm ideia do que o corticoide causa. Hoje meu fígado está comprometido por conta de remédios. Hoje eu me trato com o hepatologista por causa dos corticoides que foram sendo tomados ao longo de tantos anos. Eu tenho uma série de problemas hoje, até mesmo com o próprio corticoide, quando é necessário usar, o meu corpo não responde da mesma forma. E eu recomendo a todo mundo que usa a voz profissionalmente, para se aconselhar muito com o médico e nunca se automedicar. De remédio pra veneno é só virar uma chave”.

Isto mostra, também, a grande importância do farmacêutico se engajar em ações de prevenção e promoção da saúde vocal, principalmente no que diz respeito a orientação sobre o uso de medicamentos que possam ocasionar danos diretos ou indiretos à voz, bem como para informar sobre os graves riscos da automedicação.


Alessandra Russo de Freitas
Farmacêutica Coordenação Técnica e Científica do CFF
CRF-DF: 4746
 

Clique aqui e confira a bibliografia consultada.

Ouça também reportagem elaborada para a Rádio News Farma

Fonte: Coordenação Técnica e Científica do CFF

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