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Experiências exitosas de farmacêuticos no SUS

Notícias Gerais

Tarcisio José Palhano relata o início e a consolidação da Farmácia Clínica, no Brasil

Data: 02/05/2012

Tarcisio José Palhano possui graduação em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde atualmente é professor adjunto da disciplina de Farmácia Clínica e orientador do Estágio Supervisionado Farmacêutico do Curso de Farmácia. É especialista em Farmácia Clínica pela Universidade do Chile, tendo realizado estágios em farmácias hospitalares de diversos hospitais da França. Implantou o 1º Serviço de Farmácia Clínica e o 1º Centro de Informação sobre Medicamentos (CIM) do Brasil, no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), antigo Hospital das Clínicas, em Natal (RN). Foi consultor de várias instituições de saúde do Brasil e integrou importantes comissões nacionais, na área farmacêutica, entre as quais a Comissão de Ensino do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e a Comissão de Revisão da Farmacopeia Brasileira. Entre 1991 e 2004, foi diretor da Diretoria de Farmácia do HUOL. É, também, coautor de diversas publicações do CFF, do Ministério da Saúde (MS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), sobre farmácia hospitalar e farmácia clínica. Suas principais áreas de atuação são: farmácia clínica, reações adversas a medicamentos, aconselhamento ao paciente e farmácia hospitalar. Atualmente é assessor da Presidência do Conselho Federal de Farmácia.

Na entrevista* a seguir, compreenda como se deu o início e a consolidação da Farmácia Clínica no Brasil, a partir de relato de Palhano, que participou ativamente deste processo, além de sua opinião sobre a situação atual desta prática no Brasil.

*Com informações extraídas de entrevista à Revista Pharmacia Brasileira, do Conselho Federal de Farmácia


Instituto Racine - Conte-nos como se deu o início de sua vida profissional, como ocorreu a formação do primeiro grupo de Farmácia Clínica no Brasil e detalhes sobre sua atuação.
Tarcísio José Palhano
- Tudo começou com o professor Aleixo Prates, em 1977. Convidado pelo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, professor Domingos Gomes de Lima, para modernizar o Niquifar, laboratório-escola que funcionava nas dependências do curso de Farmácia, como campo de estágio para os alunos da habilitação em indústria, também pretendia desenvolver um projeto que resultasse na completa reestruturação da farmácia do Hospital das Clínicas, o que incluía a ampliação do laboratório de farmacotécnica magistral e a implantação de um serviço de farmácia clínica.
Para viabilizar esse projeto, o professor Aleixo convidou alguns farmacêuticos e também alguns alunos do último período do curso de Farmácia, entre os quais Júlio Maia, Socorro Oliveira e eu. Colamos grau, em dezembro de 1977. Em fevereiro do ano seguinte, prestamos concurso para a Universidade e, em março, já estávamos em São Paulo para fazer estágio. O professor Júlio foi estagiar, na farmácia da Santa Casa de Misericórdia, com o dr. Cláudio Daffre; a professora Socorro foi encaminhada para estágio com o dr. Paulo Marques, na farmácia Drogamérica, e eu fui recebido pelo dr. José Sylvio Cimino, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).
Confesso que o começo foi difícil e cheguei a pensar em desistir. Apesar de ainda saber muito pouco sobre farmácia clínica, não conseguia correlacioná-la ao estágio que realizava. Foi então que conheci o dr. George Washington, chefe do Serviço de Farmácia do Instituto do Coração (InCor) do HCFMUSP. Lá, no InCor, juntamente com as colegas Izabella Bolyhos e Sônia Cipriano - que até recentemente era diretora da Divisão de Farmácia do HCFMUSP - comecei, efetivamente, o meu estágio, sob a supervisão e orientação do dr. George. Concluído o estágio, viajei para o Chile, onde permaneci, de agosto a dezembro, fazendo curso de farmácia clínica, sob a orientação da professora Inés Ruiz, da Universidade do Chile.
Enquanto isso, os professores Júlio e Socorro já haviam concluído os seus estágios, em São Paulo, e, antes de voltarem para Natal, haviam estado em Buenos Aires, na Argentina, para conhecer a farmácia Florida, então modelo de farmácia magistral na América do Sul. De volta a Natal, o professor Júlio assumiu a chefia da Seção de Farmácia do Hospital das Clínicas e começou a executar o projeto de reestruturação idealizado pelo professor Aleixo.
No início do ano seguinte, a professora Inés foi para Natal, com a missão de coordenar a implantação de um serviço de farmácia clínica, no Hospital das Clínicas da UFRN. Foi assim que surgiu o primeiro Serviço de Farmácia Clínica do Brasil, oficialmente implantado em 15 de janeiro de 1979, conforme “Termo de Instalação”, lavrado, na ocasião, para documentar tão importante feito. Naquela mesma oportunidade, foi criado o primeiro Centro de Informação sobre Medicamentos (CIM) do Brasil, vinculado à Farmácia Clínica, visando, principalmente, a dar o suporte técnico-científico indispensável ao adequado desempenho das ações que passariam a ser executadas pelos farmacêuticos. A primeira informação fornecida, por escrito (contra-indicações do Trilergon em pacientes com enfermidade cardiovascular), data de 23 de janeiro de 1979.
Desde então, passei a dirigir a farmácia clínica. É certo que sua criação havia se constituído em um marco histórico. Porém, era apenas o começo, o primeiro passo, era preciso seguir a caminhada. Não foi difícil perceber que o passo seguinte seria constituir uma equipe. Foi, então, que sugeri ao professor Aleixo a contratação de duas colegas de turma, que haviam se destacado, durante o curso de graduação, como alunas estudiosas e aplicadas. Refiro-me a Lúcia Costa, que, por assumir o sobrenome do esposo, passou a se chamar Lúcia Noblat, e a Ivonete Batista. Seria também uma maneira de desfrutar, o máximo possível, dos indescritíveis conhecimentos da professora Inés, que iria permanecer em Natal por três meses.
No mesmo ano, as professoras Lúcia e Ivonete fizeram seus cursos de farmácia clínica, no Chile, de modo que, ao final de 1979, já contávamos com uma equipe formada por três farmacêuticos clínicos. A partir daí, a farmácia clínica deslanchou. Cada farmacêutico clínico integrou-se à equipe de uma especialidade médica, a começar pela cardiovascular, seguindo-se a gastrenterologia e a pneumologia, e começou a participar ativamente do dia-a-dia de cada uma delas
Implantado o serviço e efetivamente implementadas ações pelos farmacêuticos clínicos, era preciso fazer uma primeira grande avaliação da farmácia clínica, no País. Foi o que inspirou a realização do “I Seminário Brasileiro de Farmácia Clínica”, de primeiro a cinco de junho de 1981, do qual participaram 111 farmacêuticos de 14 Estados brasileiros, além dos professores Juan Robayo e Thomas Moore, dois consultores internacionais em Farmácia Clínica, trazidos dos Estados Unidos, graças ao convênio MEC/BID.
O seminário contou, ainda, com as presenças de representantes de diversos organismos nacionais e internacionais, das áreas de saúde e educação, de várias autoridades da nossa Universidade, a começar pelo reitor, diretor do Centro de Ciências da Saúde, coordenadora do curso de Farmácia, diretor do Hospital das Clínicas, além de médicos e enfermeiros pertencentes às equipes em que os farmacêuticos clínicos atuavam. Os depoimentos destes últimos foram extremamente favoráveis e gratificantes, pois realçaram, sobremodo, a importância da nossa participação nos trabalhos das suas equipes. Como os resultados do “I Seminário” haviam sido bastante favoráveis, nos animamos a dar um novo passo. Refiro-me ao “I Curso Brasileiro de Farmácia Clínica”, realizado de dois a 27 de maio de 1983, do qual participaram 18 farmacêuticos de sete estados brasileiros.

 

IR - Em qual departamento estava inserido, quais atividades realizava e como surgiu o interesse pela área assistencial?
TJP
- Terminei o meu curso em dezembro de 1977 e em fevereiro de 1978 prestei concurso para professor da UFRN, sendo lotado no Departamento de Tecnologia Farmacêutica e de Alimentos, hoje Departamento de Farmácia, do curso de Farmácia. Ao retornar do estágio em São Paulo e do curso no Chile, implantei o Serviço de Farmácia Clínica e o CIM, o que já constava do planejamento inicial.

 

IR - Como surgiu a idéia de compartilhar saberes e práticas com outros profissionais, criando assim o Curso de Especialização em Farmácia Hospitalar para o Controle de Infecção Hospitalar?
TJP
- A morte do presidente Tancredo Neves, em 1985, supostamente decorrente de infecção hospitalar, além de ter causado uma verdadeira comoção nacional, trouxe uma tremenda dor de cabeça para as autoridades de saúde do Brasil. Como explicar ao mundo que um presidente da República não poderia tomar posse, por ter sido vítima de um problema, até certo ponto, controlável? Foi aí que o Ministério da Saúde constituiu um grupo de trabalho (GT), liderado pelo dr. Luiz Carlos Romero, e promoveu um evento na cidade de Manaus (AM), que contou com a participação de integrantes de várias comissões de controle de infecção hospitalar (CCIHs) do país, algumas das quais criadas em atendimento ao que fora preconizado pela Portaria nº 196/83, do próprio Ministério. O objetivo do evento era traçar estratégias com vistas à efetiva implementação das políticas de prevenção e controle de infecção hospitalar, definidas na portaria.
A desenvoltura com que a dra. Lúcia Noblat - farmacêutica da CCIH do Hospital das Clínicas da UFRN - tratou do tema, chamou a atenção do dr. Romero, a ponto de ele se convencer de que seria impossível controlar a infecção hospitalar sem a efetiva participação do farmacêutico nessas comissões.
Naquela ocasião, ficou estabelecido que o Ministério da Saúde assumiria a responsabilidade de capacitar farmacêuticos, a fim de que, em igualdade de condições com os demais componentes das comissões, pudessem se desempenhar adequadamente nessa área de atuação.
O GT passou, então, a visitar farmácias hospitalares de diversos estados brasileiros, em busca de um serviço que oferecesse condições técnicas adequadas à ministração de cursos para farmacêuticos. A farmácia do Hospital das Clínicas da UFRN foi a escolhida, especialmente, pelo entusiasmo que o grupo demonstrou ao conhecer o trabalho, aqui desenvolvido, por meio da farmácia clínica.

IR - Qual era o objetivo do curso? Cite também outros detalhes: seu desenho, sua carga horária, seu tempo de duração e sua periodicidade.
TJP -
O curso, denominado “Curso de Especialização em Farmácia Hospitalar para o Controle de Infecção Hospitalar”, tinha como objetivo principal qualificar farmacêuticos para atuarem na farmácia hospitalar, com foco no controle de infecção. De 1985 a 1992, foram realizadas oito edições, com a participação de 191 farmacêuticos de todos os Estados brasileiros. Os cinco primeiros cursos foram coordenados pela professora Lúcia Noblat e os três últimos tiveram a coordenação da professora Ivonete Batista. Os cursos tinham a duração média de três meses, sendo a carga-horária de 360 horas preenchida com atividades teórico-práticas. O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) consistia, geralmente, de um projeto de estruturação ou reestruturação da farmácia hospitalar do hospital do egresso.

IR - Como era realizada a divulgação e qual era a origem dos interessados?
TJP
- O curso contava com o apoio do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e era patrocinado e promovido pelo Ministério da Saúde, em convênio com a UFRN. Além de divulgá-lo, o MS recebia as inscrições e fazia a seleção dos candidatos. Embora houvesse uma imensa demanda reprimida - houve edições com mais de quinhentas inscrições -, o Ministério priorizava farmacêuticos do serviço público, especialmente os que atuavam nas farmácias de hospitais de ensino.

IR - Aponte quais foram os fatos e profissionais mais marcantes no decorrer do Curso.
TJP
- Além da vivência e do aprendizado que um curso teórico-prático intensivo proporciona, especialmente pelo reconhecimento da importância do farmacêutico na equipe de saúde, havia uma convivência amistosa muito agradável entre alunos e professores, o que possibilitou o estabelecimento de intensas relações de amizade, algumas das quais ainda perduram.
Muitos foram os que se destacaram ao longo das oito edições dos cursos, alguns dos quais são, hoje, verdadeiros ícones da Farmácia brasileira.

IR - Como tem visto na atualidade o movimento e o interesse dos profissionais farmacêuticos pela área assistencial?
TJP
- Com bastante entusiasmo, apesar de ainda considerá-los tímidos.
Desde que iniciamos o trabalho, aqui em Natal, tivemos a preocupação de divulgá-lo o máximo possível, na expectativa de que outros tantos fossem implementados. Seria impossível dizer de quantos eventos as professoras Lúcia e Ivonete e eu já participamos, ao longo de todos esses anos, sempre divulgando a mensagem da farmácia clínica. Eu mesmo já estive em todos os estados brasileiros divulgando essa mensagem. Igualmente impossível seria dizer quantos farmacêuticos brasileiros já participaram de cursos de Farmácia Clínica, pelo mundo afora, especialmente no Chile, desde 1977.
Talvez alguns proprietários e administradores hospitalares ainda não tenham sido sensibilizados para a importância da atividade clínica do farmacêutico e suas consequências positivas para os serviços de saúde e, em particular, para o paciente. Por outro lado, muitos cursos de Farmácia, embora sigam o modelo de formação generalista, instituído pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Farmácia, continuam formando farmacêuticos essencialmente tecnicistas, completamente dissociados da prática clínica, como se não fossem profissionais da saúde.

IR - Sob seu ponto de vista, qual é a importância de um espaço como o PCare e quais foram suas impressões acerca do PCare 2011, do qual participou?
TJP
- De maneira absolutamente resumida, poderia dizer que o PCare 2011 foi um grande alento. Para os que já militam na área, uma oportunidade ímpar de apresentar seus trabalhos, divulgar seus feitos e realizações, além, é claro, de possibilitar a troca de experiências com outros profissionais, inclusive de outros países, como é o caso da Dra. Linda Strand. Para os neófitos, um grande estímulo para que se interessem e enveredem pela área de atuação que reputo como a mais bonita, a mais gratificante, a mais dignificante, e a que possibilita, a todo instante, a plena realização de um farmacêutico.


IR - Quais são suas maiores expectativas em relação ao PCare 2012?
TJP
- Que seja uma versão ampliada da anterior. Que tenha a afluência de um número ainda maior de farmacêuticos, entre expositores e participantes, e que seja capaz de agregar valor às competências de todos, de modo a que possam prestar serviços à sociedade cada vez mais qualificados e, assim, merecerem o respeito e o reconhecimento dos que cuidam da saúde dos brasileiros.

Fonte: Instituto Racine
Autor: Instituto Racine

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