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Do cérebro ao coração

Data: 12/01/2017

Cientistas descobriram um caminho direto entre estresse e doenças cardíacas. Região do cérebro sob pressão ativa processos inflamatórios que endurecem artérias. Parte de um sistema que foi fundamental para a sobrevivência em tempos imemoriais, o estresse é hoje um dos principais males da Humanidade. Sofrendo com o constante medo da violência, do desemprego, da frustração amorosa ou de outras situações com profundos efeitos psicológicos, milhões de pessoas vivem num estado crônico de tensão que já foi relacionado a um maior risco de doenças como o câncer e problemas cardiovasculares. Mas apesar dessa associação ser conhecida há tempos, os mecanismos pelos quais o estresse crônico eleva essas chances ainda são pouco compreendidos. Um estudo, porém, identificou pela primeira vez uma ligação direta entre a atividade em uma região do cérebro responsável por nossas reações emocionais e processos que provocam inflamação e endurecimento dos vasos sanguíneos, o que, por sua vez, levam a episódios como infartos e derrames.



Segundo os cientistas, o caminho pelo qual o estresse aumenta o risco de doenças cardiovasculares começa pelas amídalas cerebrais — não confundir com as estruturas também chamadas amídalas, ou tonsilas palatinas, localizadas na garganta, que são parte do sistema imunológico e uma das primeiras linhas de defesa do organismo contra agentes causadores de doenças, como vírus e bactérias. Os pesquisadores descobriram que, constantemente estimuladas por tensão emocional, as amídalas cerebrais ativam a produção pela medula óssea de células sanguíneas relacionadas a respostas inflamatórias, o que acaba por afetar a saúde das artérias do coração e outras partes do corpo.

— Embora a ligação entre estresse e doenças do coração tenha sido estabelecida há tempos, o mecanismo que media esse risco nunca foi claramente entendido — comenta o pesquisador Ahmed Tawakol, do Hospital Geral de Massachusetts, nos EUA, e principal autor do artigo sobre o estudo, publicado no periódico científico “Lancet”. — Estudos com animais já haviam demonstrado que o estresse ativa a produção de células brancas pela medula óssea, levando à inflamação arterial, e nosso estudo sugere que uma via biológica análoga existe em humanos. Além disso, identificamos pela primeira vez, em animais ou em humanos, a região do cérebro que liga o estresse aos riscos de ataques cardíacos e derrames.

‘NÃO HÁ SEPARAÇÃO ENTRE MENTE E CORPO’

No estudo, os pesquisadores fizeram dois levantamentos complementares. No primeiro, eles analisaram dados e prontuários médicos de quase 300 indivíduos que se submeteram a exames de imagem usando um radiofármaco que permite medir tanto a atividade de regiões do cérebro quanto o estado de inflamação nas artérias. Na época dos exames no hospital, nenhum tinha indícios de problemas cardiovasculares, e todos voltaram a se consultar com médicos ao menos três vezes nos dois a cinco anos seguintes. Neste período, 22 deles sofreram algum evento cardiovascular, como infarto, derrame ou angina. Todos estes também estavam justamente entre os que apresentavam maior atividade das amídalas nos exames iniciais, numa relação que se manteve mesmo depois que os cientistas introduziram outros fatores de risco na análise, como tabagismo e sedentarismo. Já no segundo leParte os pesquisadores examinaram 13 voluntários com histórico de estresse pós-traumático com o mesmo radiofármaco, verificando que o nível de atividade das amídalas de fato se traduzia em uma maior inflamação das artérias.

Segundo o cardiologista Claudio Domênico, autor do livro “Te cuida! Guia prático para uma vida saudável”, os resultados do estudo reforçam a importância do controle do estresse na prevenção de doenças cardíacas. Ele lembra, por exemplo, que desde 2011 a Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda o uso de técnicas de respiração lenta que reduzem os níveis de tensão emocional, como meditação e ioga, entre as estratégias para reduzir o risco dessas doenças, ao lado de melhorias na dieta e a prática de exercícios.

— O estudo mostra como o estresse é cada vez mais um fator preponderante de riscos de doenças na sociedade — diz ele. — Não há separação de mente e corpo e, por isso, a prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares não pode se restringir a remédios. Deve também melhorar os hábitos emocionais do paciente.

Fonte: O Globo

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