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Experiências exitosas de farmacêuticos no SUS

Notícias do CFF

ARTIGO - Porque eu gosto das pessoas

Data: 13/11/2009

Em abril deste ano, vivi uma das grandes emoções de minha vida. Foi quando a Câmara Municipal de Aparecida de Goiânia concedeu-me o título de Cidadão Aparecidense. O Prefeito Maguito Vilela, Vereadores e outras autoridades, farmacêuticos, empresários e pessoas simples do lugar lotaram o amplo Salão do Centro de Lazer e Cultura José Barroso, para dividir comigo aquela alegria. E, como se não bastasse experimentar toda aquela comoção, eis que sou apanhado, de surpresa, pelo discurso do Vereador Tarrigan de Melo. As suas palavras encheram-me os olhos d’água.
Autor do Projeto de Lei que me concedeu o Título de Cidadão, Tarrigam, de forma absolutamente espontânea, lembrou passagens de quando eu ainda era um farmacêutico recém-formado que revolveram o meu passado. Aquelas palavras serviram, também, para mostrar a consciência social e o humanismo que palpitam dentro da profissão.
O Vereador Tarrigam de Melo citou que, em minha adolescência e início da fase adulta, eu costumava ir, de bicicleta, de Goiânia a Aparecida, acompanhado de amigos, para colher jaboticabas e frutas silvestres. Aquele era mesmo um dos passeios mais emocionantes pelo que tinha de aventura e porque faltavam outros lazeres.
Até aí, as palavras de Tarrigan eram sorvidas na medida de uma emoção moderada. Foi quando ele, continuando o seu discurso, trouxe novas lembranças. Disse que, assim que me formei, eu não perdera a “simplicidade”, nem o vínculo que me ligava à então pequena população de Aparecida. “Conheço todos os passos de Jaldo. Depois que ele se formou farmacêutico, ele continuava vindo, aqui, de bicicleta, para colher frutas. Quando ele chegava, as pessoas diziam: ‘O doutor chegou!’. E formavam filas à sombra de uma árvore frondosa, para ouvi-lo falar sobre cuidados no uso dos medicamentos e sobre doenças em geral”, disse Tarrigan.
Aí, a minha emoção foi ao máximo. As lembranças colhidas pelo Vereador conectaram-me àquele passado marcado pela simplicidade, mas intenso. Aparecida, há pouco mais de 50 anos, era um povoado carente de profissionais da saúde, e nada fazia imaginar que se tornaria o Município próspero, de 500 mil habitantes de hoje.
Eu aprendera, ainda no início do curso de Farmácia, que precisaria assumir a minha condição de profissional da saúde e, como tal, deveria prestar bons serviços farmacêuticos. Assim, cumpriria a minha função social. Este sentido de responsabilidade social é da índole do farmacêutico e vem de sua ancestralidade, de quando sequer havia faculdades de Farmácia. Vem de muito longe, de quando o homem engatinhava na busca de ervas que pudessem curar o seu próximo. Tratar o próximo é lema do farmacêutico.
Historiadores aceitam o Padre José de Anchieta como o primeiro farmacêutico, no Brasil. Conta-se que a sua casa estava, sempre, aberta a quem necessitasse dos seus cuidados em saúde. O próprio Anchieta, em 1565, escreveu: “Nossa casa é botica de todos e raros são os momentos em que está quieta a campainha da portaria”.
Obcecado pelo poder curativo dos nossos vegetais, ele estudava e descrevia os recursos das plantas medicinais, as drogas e a toxidade dos alimentos. Anchieta morreu ao prestar a sua última caridade. Velho e doente, ele deixou o seu leito, para acudir um paciente, preparando-lhe um remédio. A imprudência valeu-lhe a vida.
O gesto de se entregar obstinadamente ao mundo dos medicamentos, ou de ver, pelas lentes do microscópio, aquilo que a população não vê (bactérias, fungos, parasitas, células que apontam para problemas de saúde etc.), de buscar a cura, são uma tradução do humanismo contido na profissão farmacêutica.
O que Tarrigan lembrou que eu fiz em minha juventude foi uma homenagem a mim. Mas, por estes rincões mais distantes, farmacêuticos anônimos andaram – e ainda andam - em lombos de burros por estradas carreiras para levar o medicamento a ricos e pobres que dele necessitam.
Não custa repetir palavras do escritor Monteiro Lobato sobre o farmacêutico, porque, aqui, são pertinentes. Disse Lobato: “O lema do farmacêutico é o mesmo do soldado: servir. Um serve à pátria; outro serve à humanidade”. E acrescenta Lobato: “O orgulho humano pode enganar a todas as criaturas, mas não engana ao farmacêutico, porque ele sorri, filosoficamente, no fundo do seu laboratório, ao aviar uma receita, pois, diante das drogas que manipula, não há distinção nenhuma entre o fígado de um Rothschild e o do pobre da roça”.
Certa feita, o mineiro Aluísio Pimenta, farmacêutico, escritor, Ministro da Cultura do Governo Sarney, Ex-reitor da Universidade Federal de Minas Gerais, perguntou ao seu amigo e também farmacêutico Carlos Drummond de Andrade, o nosso poeta maior, porque ele se formou em Farmácia, já que abraçou a carreira literária. A resposta de Drummond: “Porque eu gosto das pessoas”.
De sorte que é com esta voltagem de humanismo que vem do passado que a profissão farmacêutica parte para o futuro. Para o farmacêutico, amar não é apenas o verbo transitivo direto que se aprende a conjugar, nas escolas e pela vida afora. É a ação de servir, a qualquer hora de qualquer dia, em qualquer lugar, para promover a saúde do próximo, para salvar vidas. Este é o farmacêutico: o profissional que concilia altos conhecimentos técnicos e científicos com fraternidade.

 

Fonte: DM
Autor: Jaldo de Souza Santos, Farmacêutico, Presidente do Conselho Federal de Farmácia. E-mail presidencia@cff.org.br

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