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Experiências exitosas de farmacêuticos no SUS

Notícias Gerais

A onda do bem-estar

Data: 16/01/2015

Com um Jawbone Up, uma pulseira de monitoramento, Mauricio Pretto, gerente de contas do governo federal, de 32 anos, aprende diariamente sobre o próprio bem-estar. O aparelho capta seus hábitos e informa quanto ele se exercita, caminha, bebe água, café ou dorme. "Uso muito para monitorar o sono, vendo quanto me movimentei e quantas vezes acordei durante a noite", diz. Ele não está sozinho. Melhorar a saúde é a uma das ideias por trás de monitores como o usado por Pretto e também de relógios inteligentes como Peeble, do Google, Apple Watch ou o Samsung Gear.

Todos tiram proveito de uma mudança no estilo de vida: nos últimos dez anos, consumidores remodelaram drasticamente o conceito de saúde e bem-estar. Agora se espera não apenas que a comida seja gostosa, mas também saudável. Que os calçados sejam não apenas bonitos, mas ajudem a caminhar direito, que os móveis de escritório estilosos ainda façam bem à postura. Da comida ao turismo, o conceito hoje influencia cada indústria.

"O consumo está sob uma nova perspectiva", diz Lívia Barbosa, diretora da Associação Nacional de Estudos do Consumo e pesquisadora visitante do Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio). "Surgiu uma ideologia muito forte em torno da `saudabilidade`, esse desejo de que as coisas sejam saudáveis, que não é só uma tendência, veio para ficar."

Essa nova ideia de bem-estar move uma indústria de US$ 3,4 trilhões, segundo estudo divulgado na Conferência Global Spa e Bem-Estar, realizada no fim do ano, em Nova York. A economia ligada aos produtos e serviços de bem-estar é quatro vezes maior do que a indústria farmacêutica. Envolve ramos como o de spas, móveis, turismo e iogurtes, que não necessariamente têm a ver uns com os outros, mas dão uma mostra da sua atual força.

No passado e até o início do século XX, as grandes fortunas eram de quem controlava recursos, como madeira, aço e petróleo. Com o fim da Segunda Guerra, há 70 anos, no entanto, a cada década uma nova indústria predominou. Na década de 50, foi a construção civil. Na década de 60, a indústria automobilística. Na década de 70, explodiu o consumo de eletrodomésticos. Nos anos 80, o entretenimento, com destaque para a TV e o videocassete. E nos anos 90 os computadores tornaram Bill Gates, criador da Microsoft, o homem mais rico do mundo. A virada do século trouxe a era da internet, uma indústria de bilionários como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Sergey Brin, do Google.

Mas na primeira década do século XXI, sem muito alarde, algumas mudanças, combinadas, afetaram o capitalismo. A chegada à idade adulta da geração Y, nascida entre 1980 e 1990 e a primeira realmente influenciada pela cultura da internet, trouxe novos hábitos de consumo e mais preocupação com a alimentação. Junte-se o aumento da longevidade da parte mais idosa da população, trazendo consigo também a preocupação com mais qualidade de vida, e uma consciência geral sobre os benefícios de uma vida mais saudável.

A busca por mais bem-estar também responde a um fenômeno: o estressante estilo de vida moderno, alimentado por fast-food, colaborou para uma epidemia de doenças crônicas e problemas de saúde, principalmente nos países desenvolvidos. Em junho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que há 2,1 bilhões de obesos no mundo. O Brasil é o quinto país com mais casos, com 60 milhões de pessoas acima do peso e 22 milhões de obesos. Na esteira da vida moderna, aumentam também os problemas cardíacos e diabetes.

"Dez ou quinze anos atrás, seria difícil me envolver com a indústria do bem-estar. Por quê? Porque não havia indústria do bem-estar", diz o autor americano Paul Zane Pilzer. Em 2001, no livro "O Próximo Trilhão - Por Que a Indústria do Bem-Estar Vai Superar a Indústria da Saúde (Doença) nos Próximos Dez Anos", sem lançamento no Brasil, ele anteviu que a nova indústria iria influenciar as demais. "A próxima onda vai criar novas oportunidades em virtualmente cada campo."

A exigência por mais saúde está, por exemplo, por trás da tecnologia do momento. A AIB Research, consultoria americana, projeta que até o ano que vem serão vendidos 200 milhões de dispositivos "wearable" (expressão usada para computadores para vestir ou usar junto ao corpo, principalmente relógios inteligentes). A expectativa é de que nos próximos anos esses "gadgets" produzam as tecnologias mais inovadoras.

Cada lançamento é acompanhado pela imprensa especializada com a reverência antes dedicada só a iPhones e tablets. Do Peeble, do Google, ao Apple Watch, passando pelo Samsung Gear e o Band, da Microsoft, e aparelhos da LG, Sony etc., todas as grandes marcas lançaram relógios inteligentes nos últimos meses. Mas são os "wearables" e aplicativos de ginástica e monitoramento de hábitos do dia a dia que devem dominar o mercado pelo menos até 2018, prevê a consultoria inglesa Juniper Research.

Tecnologias assim não são novidade para os americanos desde os anos 80, quando surgiram os primeiros monitores cardíacos portáteis. O que diferencia as versões atuais é que os computadores nos aparelhos aprendem - e muito - sobre o usuário. O Jawbone Up usado por Pretto no início do texto não o acompanha apenas nos exercícios. Após curar-se de um câncer no rim direito em 2013, ele passou a usar o dispositivo sete meses atrás. O aparelho analisa seus dados pessoais e depois dá indicações sobre o melhor horário para dormir em um dia cansativo ou se a quantidade de cafeína do dia passou do ponto, entre outras. "Também me força às vezes a dar uma caminhada no fim do dia ou no almoço, por exemplo, se fico o dia todo numa reunião. Acabo fazendo um esforço para ir ao mercado no fim do dia a pé ou almoçar em algum lugar mais longe."

A empolgação com os novos aparelhos fez a revista "Forbes" saudar 2014 como o "o ano do `wearable`", mas a tecnologia ainda é vista com ceticismo. As funções que não têm a ver com a vida saudável, como ler e-mails e avisar sobre a chegada de uma mensagem, já estão disponíveis há tempos em smartphones e aplicativos. Fora cuidar do bem-estar, as versões atuais de "wearables" ainda não têm muito a oferecer. "O desafio-chave é fazer esses dispositivos produzirem sentido, além de dados. Contar os passos por dia é algo bom, mas não mantém os consumidores interessados, a menos que essa informação possa ser contextualizada e se torne útil para eles", diz James Moar, analista da consultoria Juniper que participou do estudo sobre o futuro dos aparelhos.

Há um ramo, entretanto, com uma adesão entusiasmada: o mundo corporativo. Desde os anos 80 grandes empresas, principalmente as americanas, gastam US$ 600 milhões por ano nos Estados Unidos com programas de bem-estar dos funcionários, estimulados a parar de fumar, se exercitar mais e ter uma vida saudável. "Wearables" levam esses programas a outro nível. Estima-se que 13% do uso desses "gadgets" no futuro será corporativo.

A petroleira inglesa BP, por exemplo, tem acesso aos dados de exercícios da equipe e mantém um programa para que continue ativa e produtiva. A multinacional americana de softwares Autodesk adotou um programa semelhante. A ideia é horripilante para empregados que não querem que os patrões saibam quantos passos caminham por dia ou quantas vezes vão à academia, mas, para as empresas, monitorar sua saúde pode significar economia nos custos de tratamento de futuros problemas de saúde e afastamentos do trabalho.

A start-up americana Buffer, fabricante do Jawbone Up, imagina que algumas tecnologias de bem-estar estarão em poucos anos incorporadas aos currículos de candidatos a emprego, atestando que são saudáveis. Pode ser só exagero. A Buffer é uma evangelista da abertura de dados e exibe na internet até a própria folha de pagamento. Naturalmente, os dados dos funcionários que aderem ao programa (e assim o desejam) são abertos. Desde que o passaram a usar o Jawbone Up, em março de 2013, segundo a Buffer, passaram a ser exercitar e a dormir mais.

Os textos aiurvédicos (da medicina tradicional indiana) já elaboravam, em 3000 a.C., o equilíbrio entre corpo, mente e espírito como forma de manter a saúde. No século V a.C., o grego Hipócrates relacionou as doenças à dieta, ao estilo de vida e a fatores ambientais. A mesma ideia reapareceu nos Estados Unidos no século XIX. Mas foi o médico Halbert L. Dunn que, nos anos 50, criou a expressão "bem-estar" para um pacote de serviços que deveriam ser oferecidos para prevenir doenças e fortalecer pacientes. Inspirado nas suas ideias, um seguidor, John Travis, hoje professor de medicina da Universidade John Hopkins, criou, em 1975, o primeiro spa em Mill Valley, na Califórnia.

Era um complemento aos tratamentos médicos, oferecendo serviços ligados à recuperação de um paciente, cuidados com nutrição e até microcirurgias. Mas com o tempo os spas ampliaram o público e os tratamentos de bem-estar e relaxamento, voltando-se para a classe média. "Foi-se percebendo que um spa possui características muito mais amplas, atraindo a atenção de públicos mais variados", observa Ana Paula Marques, diretora-executiva da Associação Brasileira de Clínicas e Spas (ABC Spas). "A diferença para as clínicas de estética que oferecem serviços de beleza tende a desaparecer, pois o público busca todas as atividades em um mesmo lugar."

Spas são um dos ramos mais beneficiados pela busca de bem-estar. No mundo, 500 milhões de turistas gastam US$ 500 bilhões apenas com viagens aos "spas-destino", hotéis e resorts. Estâncias hidrominerais, como Águas de Lindoia (SP), São Lourenço e Poços e Caldas (MG), sempre foram destinos visitados em busca de boa saúde, mas a tendência vem crescendo em todos os continentes. É um turista dinâmico: gasta 159% a mais do que um turista comum. Há 105 mil spas pelo mundo, 47% a mais do que em 2012.

A expressão "spa", ainda bastante usada no Brasil, vem sendo substituída nos Estados Unidos por "centro de bem-estar" por ser considerada elitista. Mais do que aquele lugar onde as pessoas ricas se hospedavam para temporadas de dias ou semanas (os "spas-destino"), nos últimos dez anos passou a definir principalmente os spas urbanos, espaços em grandes cidades que oferecem tratamento de beleza e contra o stress de algumas horas a preços mais acessíveis. Segundo a ABC Spas, são mil em todo o Brasil. "Os `spas-destino` foram os grandes precursores da atividade no Brasil, mas hoje são os `day spas` para tratamento de um dia e spas em resorts e hotéis que apresentam o maior crescimento", afirma Ana Paula Marques.

A maioria das empresas brasileiras do ramo é de pequeno e médio porte, com faturamento mensal entre R$ 20 mil e R$ 40 mil. Criam 13,4 mil empregos e, somadas, movimentam R$ 370 milhões. São Paulo é o grande centro nacional dos spas no Brasil, com 43% do total, mas Rio, Belo Horizonte e Brasília também têm sido grandes balizadoras desse mercado. O preço varia conforme o local e o pacote oferecido. Uma massagem de uma hora, por exemplo, custa em média R$ 100.

Os tratamentos contra estresse são buscados por 82% dos frequentadores, segundo a ABC Spas, e geralmente incluem técnicas de medicina alternativa, como a massagem aiurvédica, que estimula os sistemas circulatório e linfático, e também shiatsu, aromaterapia, sauna e pedras quentes, entre outros. Para crianças, alguns lugares incluem degustação de milk-shake, além de uma massagem com chocolate.

A idade média dos frequentadores é de 35 anos. As mulheres são a maioria, 81%, mas não no Amanary Spa, no Grand Hyatt Hotel. Localizado em um dos hotéis mais luxuosos da cidade, na Marginal do Pinheiros, atrai um público de executivos em viagens. "Temos um predomínio masculino. Os homens são mais fidelizáveis", conta Ana Flores, gerente-sênior dos spas Hyatt das Américas.

No spa, que segue o padrão do hotel, numa tarde de novembro, o empresário José Paulo Cortez usava os serviços. "Eu procuro um spa em busca de praticidade, conforto, requinte e simplicidade", diz. O Amanary oferece um dia fora da rotina com tratamentos. Um pacote de quatro horas, com massagem, aromaterapia e tratamento facial e corporal, chega a custar R$ 606.

E tanto no Brasil quanto no exterior o setor não conhece recessão. "A gente vê a economia sofrendo, mas não percebe esse reflexo no spa; pelo contrário", comenta Ana Flores. "Em comparação com outros segmentos, os spas e clínicas se saíram relativamente bem", diz Ana Paula, da ABC Spas. Segunda ela, em 2014 a retomada se deu mais lentamente, mas a partir deste ano o crescimento deve voltar a ser mais forte.

O Brasil é a terra da "comida ogra". Era uma das deduções no fim dos anos 90, quando uma rede americana de sanduíches viu caírem de 38 para 2 as lojas no país. Os brasileiros não seriam muito fãs da alimentação saudável - como a marca se apresenta. Números do IBGE e do Ministério da Saúde recentemente divulgados dão razão à teoria: 40% dos brasileiros adultos sofrem de hipertensão e se alimentam com gordura e sal demais. Outras pesquisas mostram que também é alto o consumo de açúcar e há uma epidemia de obesidade e diabetes entre a população.

Mas o país também é um dos dez maiores mercados da alimentação saudável no mundo. Apenas as vendas de suplementos alimentares e fortificantes são de US$ 10 bilhões anuais, segundo a Euromonitor, empresa inglesa de inteligência de mercado. As exportações brasileiras de alimentos orgânicos, produzidos sem agrotóxicos, subiram de US$ 5 milhões em 2005 para previstos US$ 150 milhões neste ano. Comidas e bebidas saudáveis são um mercado de outros US$ 20 bilhões.

"O consumo de alimentos saudáveis é ainda pequeno, 9% do total, mas uma tendência que está crescendo com a consciência de uma certa camada da população", informa Dênis Ribeiro, diretor de economia da Associação Brasileira dos Alimentos.

A indústria de alimentos foi pioneira nos produtos que prometiam prevenir doenças com os adoçantes, lançados nos anos 60 e 70. "Era um produto para diabéticos que acabou adotado por outras faixas de consumidores", diz Ribeiro. Nos anos 80, surgiram os alimentos e bebidas light e, na década seguinte, no Japão, os alimentos funcionais, que fortalecem o organismo. Hoje são os orgânicos.

Fora dos supermercados, redes como Wraps, Go Fresh e Yogobery desmentem a falta de gosto nacional para fast-food saudável. As duas primeiras, criadas pelo brasileiro Marcelo Ferraz e vendidas em 2012 para a International Meal Company (IMC), vendem sanduíches feitos com "wraps", uma massa fina enrolada com recheios como salpicão ou maionese, e têm hoje sete lojas no Rio e em São Paulo. A marca de "frozen yogurt", criada pelos irmãos sul-coreanos Un Ae HongJong Ae Hong no Rio, abriu mais de cem lojas no país e tem até duas no Irã.

Há espaço também para pequenos negócios, como o mineiro Detox at Home, de Belo Horizonte, que vende kits de alimentação saudável para uma semana. Cada kit custa R$ 195. "Com problemas como câncer e depressão, as pessoas passaram a se ligar mais numa boa alimentação", diz a criadora da marca, a chef Ana Maria Fonseca. Ela também tem um serviço em que cozinha na casa do cliente, que escolhe o cardápio, preparado apenas com alimentos frescos e da estação. "Tenho clientes que depois que começaram a se alimentar melhor passaram a ver comida de outra maneira, relatam melhoras dos problemas de saúde e ficam com a aparência melhor."

O preço da mudança é caro. Alimentos ligados à saúde custam 28% mais do que em 2002, descontada a inflação. No mundo, as vendas de comidas saudáveis devem atingir US$ 1 trilhão pela primeira vez em 2017. Alimentos têm seu ciclo da moda. Hoje é o "goji berry", fruto vermelho da planta tibetana "Lycium barbarum" que, com apregoadas propriedades antioxidantes e emagrecedoras, é vendido por até R$ 100 o quilo. Antes foi a semente de chia, do sul do México, também emagrecedora. A sobremesa saudável do momento, as passas de "cranberies", levou a escritora gaúcha Carol Bensimon a protestar.

"Comer vai se tornando, em uma perspectiva importada sobretudo dos EUA, menos um mundo subjetivo de sensações e mais um sistema perfeitamente organizado de males e benefícios", escreveu a autora do romance "Todos Nós Adorávamos Caubóis" em sua coluna no jornal "Zero Hora". "Cranberries" são frutinhas amargas, populares nos Estados Unidos depois de misturadas com açúcar - ou seja, pouco saudáveis. "Em muitos casos, quando lemos a palavra `saúde`, deveríamos ler a palavra `marketing`, simplesmente."

"As pessoas compram esses conceitos simplesmente porque trabalham demais. Aí, para compensar, surge o arroz que vem de uma plantação tal e a comida gourmet", diz o jornalista e escritor André Barcinski, autor do "Guia da Culinária Ogra - 195 Lugares para Comer até Cair", uma celebração aos bares e restaurantes de São Paulo onde a comida às vezes é de entupir as veias. "Não sou contra comida que faz bem. Mas comida de rua não faz mal, necessariamente. A boa comida de rua é benfeita. Ruim é fast-food."

Para a professora Lívia Barbosa, da PUC-Rio, o bem-estar obtido via produtos funciona até certo ponto. "A comida não vai mudar o mundo", afirma. "No mundo do trabalho, por exemplo, toda ideia de bem-estar se contrapõe à realidade de que as pessoas estão trabalhando por mais tempo."

Barcinski questiona se o problema não está no ritmo de vida das cidades, que empurra a comida rápida, e não na culpa de certos alimentos. "Pega uma foto de São Paulo 80 anos atrás e vê se as pessoas eram gordas. Não eram. Essas pessoas comiam tofu?"

Fonte: Valor Econômico
Autor: Alexandre Rodrigues

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