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A medicina do futuro

Data: 26/09/2014

Vivemos hoje a era mais saudável da história. Somos mais altos, vivemos mais e nunca fomos tantos - 7 bilhões e, até o fim do século, prováveis 9 bilhões. No entanto, melhor seria se não tivéssemos como perspectiva, em geral, um envelhecimento complicado, ameaçado por enfermidades não infecciosas, ou crônicas, como as cardíacas e respiratórias, diabetes tipo 2, câncer, osteoporose e alergias, que se tornaram as principais causas de doença e morte, tomando o lugar da má nutrição e das doenças infecciosas.

Essa mudança, que os especialistas chamam de transição epidemiológica e que está no centro dos debates atuais sobre saúde, ganha uma nova perspectiva com as recentes descobertas e avanços da genética, que se somam aos estudos de um campo relativamente novo da ciência, a medicina evolutiva, voltada para conhecer o passado e entender por que o organismo humano funciona da maneira como funciona hoje. É o começo de uma revolução da ciência médica, que abre novas expectativas para o futuro da saúde humana.

Se nos últimos 60 anos o conceito genético transformou completamente a biologia, as tecnologias mais recentes, como clonagem e sequenciamento, facilitaram os estudos em áreas como biologia evolutiva, biologia molecular e biologia celular. Foi possível, então, trazer para o nível clínico todo o organismo do indivíduo, em detalhes, para uma observação profunda e para entender por que o paciente tem os problemas que tem. "Todo esse progresso tecnológico nas últimas décadas revolucionou a biologia. E a biologia humana, em minha opinião, será a base da pesquisa biomédica", previu o Prêmio Nobel de Medicina Sydney Brenner, em palestra no 1º Fórum Medicina do Amanhã, realizado no fim de semana no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. "Se estamos interessados em intervenções em medicina, precisamos compreender os mecanismos que operam em nosso organismo em nível celular e molecular." Isso é necessário, disse o cientista, para entender por que o paciente tem os problemas atuais, ou seja, para aplicação útil na medicina. Um dos pioneiros em genética e biologia molecular do século passado, Brenner se dedicou mais recentemente ao estudo dos genes de vertebrados e à evolução genômica. Seu trabalho resultou em novas formas de analisar a sequência de genes, do que derivou uma nova compreensão da evolução dos vertebrados.

Até mesmo dificuldades éticas começam a ter solução, já que é preciso pensar em maneiras de chegar à compreensão mais profunda dos mecanismos que operam no organismo humano, diferentes das utilizadas nas pesquisas com ratos, como a criação de roedores transgênicos. Na visão de Brenner, esse processo também já começou, com os trabalhos sobre células-tronco pluripotentes induzidas, ou seja, células adultas reprogramadas para rejuvenescer e recuperar as propriedades das células-tronco embrionárias.

"A maior revolução, a mais absolutamente essencial, já teve início, cinco a oito anos atrás, com a habilidade de pegarmos uma célula somática, qualquer célula do corpo humano, e transformá-la em uma célula que terá o potencial de se transformar em muitas células diferentes", disse o cientista. "Podemos pegar as células de um paciente e transformá-las em células pluripotenciais. E estamos começando a aprender agora como transformá-las em células específicas e diferenciadas do organismo." Isso abre, segundo Brenner, uma oportunidade de expansão de todo o campo da biologia humana, em termos de saúde, doença e tudo que se queira. "Podemos fazer observações sobre o organismo e depois projetá-las de forma mais profunda, para que isso nos leve a entender por que o paciente tem os problemas que tem." Para Brenner, só com a investigação dos humanos de forma holística, com pesquisas que poderão ser feitas em detalhes profundos sobre células e moléculas dos pacientes, se conseguirá atingir esse progresso.

"O estudo de seres humanos será essencial na pesquisa futura. Acho que todas as grandes descobertas, todos os prêmios Nobel irão para essa área de trabalho. Vamos descobrir tantas coisas novas nesse campo, principalmente na área do cérebro humano, que nem conseguimos imaginar no momento", disse Brenner. "As pessoas mais diretamente relacionadas à pesquisa humana, ou seja, nós médicos e cientistas, precisamos estar à frente do processo, com uma compreensão total do ser humano. Nesse momento, tudo vai se abrir à nossa frente. Só lamento não ter 20 anos menos para poder participar desse processo", disse o cientista sul-africano, de 87 anos.

Segundo Brenner, será preciso produzir uma nova geração de cientistas clínicos que também sejam os melhores cientistas de ciência básica. "Precisam ser os melhores, porque vão encontrar problemas excepcionalmente difíceis, envolvendo os organismos mais sofisticados que já foram criados, ou seja, os seres humanos. Não precisaremos usar modelos animais para doenças, já que temos modelos humanos. É um período maravilhoso que vivemos agora. Temos os recursos e os talentos para darmos passos maiores do que demos nos últimos 60 anos." Daniel Lieberman, diretor e professor do departamento de biologia humana evolucionária da Universidade de Harvard, afirma que estudos nesse campo emergente da ciência podem ajudar a compreender por que somos tão expostos a doenças crônicas e por que as abordagens atuais estão falhando. Também será possível repensar o que fazer para enfrentar o problema da transição epidemiológica, que ele considera o maior desafio da medicina, uma verdadeira bomba-relógio.

"Nossos corpos não foram projetados, evoluíram. Se quisermos saber por que estão como estão e por que ficamos doentes, temos que ter perspectiva evolutiva", disse Lieberman, também presente no Albert Einstein. Para ele, a bioquímica, a genética, a fisiologia e a anatomia explicam os mecanismos da doença, os mecanismos pelos quais os corpos funcionam. "Mas a última explicação sobre por que nossos corpos são assim, por que ficamos doentes, exige uma perspectiva que aplica conhecimentos evolutivos às doenças humanas." A ciência evolutiva explica, por exemplo, por que os seres humanos têm tanta tendência à obesidade e por que é tão difícil combatê-la. As transformações de milhões de anos atrás, desde que divergimos da linhagem dos macacos, resultaram em um ser composto por um conjunto de adaptações, que frequentemente entram em conflito. Além disso, com a seleção natural, evoluímos não para sermos saudáveis, mas para ter filhos, para sermos reprodutivos. "A seleção natural não traz adaptações que favoreçam a saúde, mas apenas as que favorecem a reprodução", disse Lieberman.

É por isso que a gordura é importante para nossas biologias. "Um chimpanzé típico precisa de 1.400 calorias por dia, mas a mãe humana precisa de 2.700 calorias diárias, porque não apenas tem um cérebro grande, mas porque também tem de alimentar o filho. Os corpos das pessoas também são maiores do que dos chimpanzés. Os seres humanos, principalmente as mães, precisam de muito aporte energético." Por essa razão também não gostamos de nos exercitar, pois isso não é evolutivo, já que precisamos preservar energia. Ao contrário, é adaptativo ser preguiçoso. "Você não tende a gastar energia em processos que não vão beneficiar o processo reprodutivo", disse Lieberman. A perspectiva evolutiva explica, finalmente, que as doenças crônicas tornaram-se mais comuns ou mais graves porque nossos corpos não se adaptaram às novas condições ambientais, provocadas pela evolução cultural.

Fonte: Valor Econômico
Autor: Gleise de Castro

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