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Experiências exitosas de farmacêuticos no SUS

Notícias Gerais

Edição de memórias

Data: 28/08/2014

Somos frutos de nossas experiências, e muitas de nossas lembranças estão diretamente associadas a emoções. Uma tarde agradável na praia com amigos, um delicioso almoço em família, um excitante primeiro encontro com um interesse amoroso ligam lugares, eventos e pessoas de uma maneira positiva em nossos cérebros.

Sabe-se, porém, que esta chamada valência de nossas memórias pode mudar com o tempo e novos acontecimentos. Testemunhar um afogamento pode fazer com que nunca mais queiramos voltar àquela mesma praia, enquanto um divórcio litigioso acrescentaria um sabor amargo à comida daquele restaurante onde a relação começou. Esta maleabilidade da memória há tempos é usada por psicoterapeutas no tratamento de condições como depressão, fobias ou estresse pós-traumático, mas os mecanismos cerebrais por trás destas mudanças de associações ainda permanecem em grande parte desconhecidos.

Nos últimos anos, porém, os cientistas têm utilizado um novo método para pesquisar cada vez mais a fundo como funciona nossa memória e como seria possível manipulá-la. Conhecido como optogenética, este ramo da neurociência usa camundongos geneticamente alterados de forma que seus neurônios possam ser ativados e controlados por estímulos luminosos. Com isso, eles já demonstraram ser capazes de implantar falsas memórias nos animais e, agora, o mesmo grupo responsável por este experimento deu mais um passo, alterando associações entre lugares e emoções de negativas para positivas e vice-versa.

Embora ainda muito longe de terem qualquer aplicação prática em seres humanos, estas experiências estão confirmando antigas teorias e hipóteses sobre o funcionamento do cérebro e da memória, assim como revelando caminhos para futuros remédios e tratamentos que ajam sobre os mecanismos que estão sendo descobertos.

— Há evidências vindas da psicoterapia de que as memórias positivas podem suprimir as lembranças de experiências negativas — diz Susumu Tonegawa, líder da pesquisa no Centro de Genética em Circuitos Neurais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e principal autor de artigo sobre o novo experimento, publicado na edição desta semana da revista “Nature”.

— Mostramos que a valência emocional das memórias pode ser mudada a nível celular e, no futuro, alguém poderá ser capaz de desenvolver métodos que ajudem as pessoas a lembrar as memórias positivas com mais força que as negativas.

RESULTADO SIMILAR À TERAPIA COGNITIVA

Psiquiatra da clínica Espaço Clif, Gustavo Bravo lembra que as mudanças de valência emocional de memórias e experiências são uma técnica clássica de terapia cognitiva, na qual se procura identificar que ideias ou sentimentos estão por trás de disfunções do paciente e transformar as reações desproporcionais de medo ou ansiedade a estes estímulos determinados.

O método é muito comum, por exemplo, no tratamento de fobias, em que exercícios como a exposição continuada, frequente e gradual do paciente ao estímulo que gera as reações negativas acaba por mudar sua resposta emocional. Segundo ele, apesar de não se saber se um dia será possível fazer isso por meio da manipulação direta dos neurônios associados à memória, o princípio seria similar.

— O que se aplica ao estímulo externo também pode ser aplicado à representação interna — diz. — Conceitualmente, é o mesmo tipo de intervenção que pode chegar aos mesmos resultados.

No experimento conduzido por Tonegawa e sua equipe, os camundongos, todos machos, foram geneticamente alterados para que neurônios em duas regiões de seus cérebros, o hipocampo e a amídala, pudessem ser marcados e ativados através das ferramentas da optogenética. Parte deles foi então condicionada a ter uma memória negativa de um ambiente por meio de choques elétricos, enquanto a outra parte foi treinada a ter uma lembrança positiva com a interação com fêmeas.

Depois de alguns dias, os pesquisadores reativaram artificialmente a memória dos camundongos com estímulos luminosos nos neurônios marcados durante o condicionamento. Esta etapa comprovou que o treinamento foi bem-sucedido, já que, mesmo distantes de onde ele ocorreu, os animais que tinham a lembrança negativa “congelaram” de medo, enquanto os que tinham a memória positiva apresentaram maior atividade exploratória.

Já na terceira fase do experimento, os cientistas buscaram saber se poderiam sobrescrever a memória negativa associada ao ambiente original de condicionamento. Eles então subdividiram os camundongos em dois subgrupos e os colocaram em um novo espaço no qual poderiam interagir com fêmeas, ativando os neurônios do hipocampo que registraram a experiência traumática em um dos subgrupos e os da amídala no outro. Por fim, os animais foram postos de volta no ambiente traumático inicial, no qual apenas os que tiveram os neurônios do hipocampo ativados na etapa anterior do experimento tiveram uma reação emocional positiva, enquanto os que foram submetidos à estimulação da amídala continuaram a demonstrar reações de medo. Experiência no sentido inverso com os camundongos cuja memória inicial era positiva e foi transformada em negativa teve resultados similares.

“ONDE” E “O QUÊ” EM CIRCUITOS DIFERENTES

Segundo os pesquisadores, esta diferença entre os subgrupos sugere que as associações emocionais das lembranças são codificadas em algum ponto dos circuitos neurais que ligam o hipocampo à amídala, já que a primeira destas regiões do cérebro está associada à memória espacial e física, enquanto a segunda tem conexão com outros mecanismos ligados a reações de “fuja ou lute”, nas quais a pronta interpretação de uma situação é fundamental.

“O mais intrigante neste estudo é que as representações da memória associadas ao um lugar são dissecadas em seus componentes de rede e, no lugar de expor novamente os animais à situação de treino para obter uma mudança, a luz é usada para reativar seletivamente a representação do componente do ‘onde’ de uma memória e então alterar sua associação de ‘o quê’”, destacam Tomonori Takeuchi e Richard Morris, da Universidade de Edinburgo, em comentário que acompanha o artigo sobre o experimento na “Nature”.

Fonte: O Globo

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